A velocidade de execução como parâmetro de individualização do treino de força no idoso

A velocidade de execução como parâmetro de individualização do treino de força no idoso

Em nome de um envelhecimento activo e saudável, cerca de 40 idosos, entre os 66 e os 94 anos, da Santa Casa de Misericórdia do Fundão participam num programa de treino desenvolvido por investigadores do CIDESD. Através de programas de treino de força supervisionados, esta equipa procura promover a melhoria da condição física e cognitiva em idosos institucionalizados. «A componente de integração social é também um objectivo permanente neste projecto», frisa o investigador Mário Marques.

Conduzido pelo doutorando Diogo Marques, e sob a orientação dos investigadores Mário Marques (UBI/CIDESD) e Henrique Neiva (UBI/CIDESD), este projecto procura perceber diferentes respostas (agudas e crónicas) na melhoria de diferentes parâmetros da condição física e de saúde na população idosa. «Procura-se perceber de que forma é que a individualização do volume de treino, através do controlo permanente da perda de velocidade de execução ao longo da série e das repetições, permite obter melhorias importantes no desempenho físico e cognitivo», referem.

Para além da individualização do programa de treino, todos os exercícios devem ser realizados à máxima velocidade de execução «devido aos potenciais benefícios produzidos ao nível neuromuscular». Ao estimular a produção de força a uma maior velocidade, pretende-se que se verifiquem melhorias funcionais durante a realização das tarefas diárias, como levantar da cadeira, subir escadas, levantar da cama ou caminhar, e ao nível do tempo de reacção, que «apresenta uma estreita relação com a ocorrência de quedas».

«Até ao momento, têm-se verificado melhorias em todos os parâmetros avaliados. Contrariamente ao que se verifica noutros estudos, onde alguns sujeitos não respondem favoravelmente aos estímulos do programa de treino, os nossos resultados revelam uma melhoria em todos os participantes, o que parece indicar que uma prescrição individualizada da intensidade absoluta e do volume pode ser bastante efectiva. Ainda assim, são necessários mais estudos que comparem um volume de treino igual para todos os sujeitos face a um volume de treino baseado na perda de velocidade», adianta o investigador Mário Marques.

A ideia deste projecto nasce no seio da equipa de investigação depois de várias discussões e reflexões, quando perceberam que, embora o controlo da velocidade de execução fosse uma prática usual no âmbito desportivo, era importante perceber os seus benefícios em contexto clínico, nomeadamente com idosos institucionalizados. «A utilização de tecnologia de elevada fiabilidade durante os treinos e, acima de tudo, a possibilidade de intervir e ajustar as cargas em tempo real são as mais-valias deste projecto», acrescentam os investigadores.

Avaliação, prescrição e controlo do treino

Os idosos que estão envolvidos no projecto têm duas sessões de treino semanais, com uma duração de aproximadamente 45 minutos. Durante meia hora, executam exercícios na prensa de pernas horizontal, prensa de peito, agachamentos na cadeira (com coletes de peso) e lançamentos da bola medicinal.

A equipa do CIDESD realiza de forma sistemática diferentes tipos de testes (força dinâmica máxima, potência muscular, capacidade de aceleração linear e tempo de reacção), recorrendo a instrumentos de elevada precisão tecnológica. Para os testes de força dinâmica máxima (prensa de pernas e prensa de peito), é utilizado um dinamómetro isoinercial (T-Force System), que mede a velocidade de execução, enquanto que para medir a força isométrica máxima, é utilizado um dinamómetro de preensão manual. Para avaliar a capacidade de aceleração linear são utilizadas células fotoeléctricas e para avaliar o tempo de reacção é utilizada uma aplicação móvel, desenvolvida especificamente para esse fim.

Na avaliação inicial, procura-se perceber os níveis de força, potência muscular, capacidade funcional e tempo de reacção de todos os utentes para, posteriormente, se definirem programas de treino específicos e individuais. Já nas avaliações de controlo, os participantes são novamente submetidos às avaliações de força dinâmica máxima, onde se procuram ajustar as cargas de treino, nomeadamente ao nível da intensidade absoluta, isto é, do peso (kg). Todos os testes são repetidos nas avaliações finais para se perceber o impacto que o programa de treino teve nas diferentes variáveis medidas.

«Tanto quanto sabemos, até à data, não existem trabalhos científicos publicados com procedimentos metodológicos semelhantes, isto é, que individualizem o volume de treino através de um controlo rigoroso da perda de velocidade ao longo da série e que manipulem a carga externa durante os treinos com idosos institucionalizados», reitera Mário Marques.

O projecto arrancou em 2018 e será desenvolvido até ao final do ano, com «a possibilidade de continuar para lá de 2019». Os investigadores do CIDESD têm, ainda, uma ambição maior: vê-lo replicado noutras regiões do País. «Com base no trabalho que se está a desenvolver, pretendemos criar uma metodologia que possa servir de exemplo para outras instituições, nomeadamente lares e centros de dia. Devido à necessidade urgente em se apostar em estratégias de prevenção, nomeadamente em idosos institucionalizados, este projecto poderá ajudar significativamente na melhoria da saúde e bem-estar de todos os participantes», conclui Mário Marques.