À conversa com Jaime Sampaio…

À conversa com Jaime Sampaio…

Além de exercer as funções de director do CIDESD, Jaime Sampaio é também investigador do CreativeLab, uma das três comunidades de investigação do centro. Neste início do novo ano lectivo, fomos auscultar a sua opinião relativamente ao decorrer da sua actividade científica e aos desafios dos próximos anos.

Como é que vê a área das Ciências do Desporto no panorama actual da investigação?

Portugal, e muitíssimos outros países, precisam de uma reforma educativa urgente na base do sistema, que definitivamente se liberte dos seus pressupostos que já datam do século XVIII, aquando da Revolução Industrial. A escola tem que se reinventar na direcção de um espaço imerso na comunidade, onde se quer mesmo estar, porque se aprendem competências que nos fazem sentir melhores e se nos respeita pelo que somos e pelo esforço que fazemos para nos transformarmos. Na prática, o sistema educativo precisa de substituir os testes e os exames por projectos colaborativos transdisciplinares, flexibilizando os currículos e multiplicando o peso das actividades artísticas, desportivas e recreativas… E, obviamente, do ócio. O tempo de ócio é determinante para o desenvolvimento integral dos cidadãos. É o tempo que nos permite parar e “conectar os pontos” da nossa vida, que frequentemente parecem dispersos. Parece que divergi da pergunta, mas não foi o caso. Acredito que a ciência em geral e as ciências do desporto em particular só vão estar no patamar de importância que lhes é devido quando a população for educada de forma diferente.

Mas a Ciência e o Ensino Superior também têm que se ajustar ou não?

Claro que sim. Tem que seguir o trajecto da resposta anterior… O que vejo como mais urgente a melhorar é o aumento da proximidade entre investigação e ensino, bem como a construção flexível dos planos de estudos. Nos tempos que correm, um professor não ajuda os alunos a aprender se não possuir competências (avançadas) de investigação, que lhe permitam perceber, em detalhe, os problemas da actualidade. E ensinar também tem que fazer parte dessas competências, ensina-se o que se investiga… A construção personalizada dos planos de estudos é também determinante, uma boa parte do plano deveria ser escolhida pelos alunos, seguindo os seus interesses mais fortes. Por exemplo, um aluno a formar em Ciências do Desporto já necessita de formação especializada, que não encontrará facilmente nos departamentos ou nas faculdades que são a âncora do seu curso, em ciência de dados, em comunicação e multimédia, em ciências da saúde ou até em áreas aparentemente menos relacionadas. Já dizia Da Vinci que “tudo se conecta com tudo”, nestes aspectos, creio que beneficiaríamos de um retrocesso aos tempos do humanismo renascentista.

É uma visão que contrasta com o forte “boom” tecnológico dos últimos tempos…

A tecnologia está, obviamente, para ficar e temos que aproveitar o que de melhor nos proporciona. Por exemplo, no âmbito das Ciências do Desporto e, em particular, dos desportos colectivos, devido à sua complexidade sempre foram mais associados à arte do que à ciência. O que se percebe perfeitamente, porque a ciência raramente foi capaz de dar resposta a perguntas que não fossem algo óbvias. Mas, nos últimos tempos, a evolução tecnológica permite medir novas variáveis com muito rigor. Por exemplo, em quase todas as sessões de treino já são utilizados acelerómetros de alta precisão (100-200Hz) para medir a carga externa a que os desportistas são sujeitos. Estes dados permitem avançar para a formulação de novas perguntas. Como dizia Jorge Wagensberg, mudar a resposta é uma evolução, mas mudar a pergunta é uma revolução… Mas se usadas em excesso, as tecnologias de medição também têm os pontos fracos como, por exemplo, a diminuição de comportamentos criativos.

A criatividade é mesmo uma habilidade de futuro a desenvolver no CreativeLab na UTAD?

A todos os níveis. Não vejo que seja possível estudar e implementar formas de desenvolver a criatividade no desporto e, depois, não ser contagiado por esse forte espírito. No CreativeLab, desde cedo que entendemos ser necessário criar um ambiente de trabalho diferente, muito partilhado, mas que faça emergir a criatividade e o talento pessoal de cada investigador, com objectivos muito ambiciosos que requeiram uma excepcional organização e capacidade de trabalho. A criatividade não emerge da liberdade total, embora tenha que existir alguma liberdade. Emerge, sim, de uma série de constrangimentos que servem de primeiro guia para qualquer actividade. E é uma orientação que nos tem servido bastante bem. Ao longo dos últimos anos, os resultados têm projectado o CreativeLab para patamares de grande excelência internacional, por exemplo, é inegável a projecção do trabalho do Bruno Gonçalves na Análise da Performance, da Sara Santos no Desenvolvimento de Programas de Treino, do Diogo Coutinho no Treino através de Jogos Reduzidos. Neste momento, está a surgir uma nova vaga de investigadores com trabalho de grande interesse, como o Nuno Mateus, que se está a especializar em Análise do Comportamento Sedentário em Desportistas, ou o Igor Cruz, que se está a especializar em Estrutura da Variabilidade da Carga de Treino. Todas estas direcções têm um princípio comum de constrangimentos, que depois sofrem alterações, naturalmente personalizadas. O processo também melhora muito devido à frequência com que conseguimos trabalhar com investigadores de outras instituições nacionais, como o Bruno Travassos, o Eduardo Abade ou o Hugo Folgado e internacionais, como Miguel Gómez, Carlos Lago Peñas, Daniel Memmert, Koen Lemmink, Aaron Coutts, Wolfgang Schöllhorn, Julio Calleja, entre muitos outros.

Então, qual será a grande missão institucional da investigação produzida?

É a de sempre… E  procuramos que esteja bem expressa não só nos documentos que produzimos, como na nossa atitude diária no trabalho. Ajudamos a que as pessoas se desenvolvam e sejam capazes de ter autonomia em intervenções associadas às Ciências do Desporto. Na essência, todo o sucesso passa pela criação de ambientes que potenciem o desenvolvimento de recursos humanos de qualidade, com mecanismos efectivos de controlo, ou seja, basicamente, com bons exemplos.