À conversa com a investigadora Carolina Vila-Chã…

À conversa com a investigadora Carolina Vila-Chã…

Além da docência no Instituto Politécnico da Guarda (IPG), a investigadora Carolina Vila-Chã integra a comunidade científica Strong e faz parte do Conselho Consultivo do CIDESD. Neste início de ano, procuramos perceber o seu olhar retrospectivo e, também, como perspectiva o próximo plano de actividades do CIDESD.

Como é que vê a área das Ciências do Desporto no panorama actual da investigação?

A investigação científica em Ciências do Desporto tem aumentado de forma exponencial. No entanto, e apesar dos extraordinários avanços, é notória a necessidade de estudos de maior qualidade científica em várias áreas de aplicação. Em Ciências do Desporto, à semelhança do que sucede noutras áreas de estudo do ser humano e do seu contexto, as dificuldades são acrescidas. A superação destas barreiras e o desenvolvimento de um conhecimento mais profundo sobre as várias vertentes do desporto exigem uma abordagem multidisciplinar. Também, hoje em dia, a pluralidade cada vez maior do desporto levanta questões de investigação importantes, porém complexas, que surgem à medida que o desporto se globaliza e se enraíza no panorama social, cultural e económico da sociedade. São vários os desafios que actualmente se colocam nas várias vertentes do desporto, desde o alto rendimento ao desporto de lazer numa perspectiva de melhoria da saúde. Assim, do meu ponto de vista, é fundamental envolver no processo investigadores de outras áreas, que aportem uma outra perspectiva ou novas metodologias de investigação ainda pouco aplicadas ao desporto, mas que se mostrem promissoras para estudar a complexidade desta área.

Como viu o decorrer do último projecto estratégico do CIDESD (2013-19) na sua comunidade?

A comunidade Strong tem desenvolvido um trabalho de elevada qualidade em várias linhas de investigação e muito deste trabalho tem sido reconhecido internacionalmente. A meu ver, este reconhecimento reflectiu-se de um modo notório na última avaliação do CIDESD. Nesta comunidade, surgiram também outras linhas de investigação (PAC’s) direccionadas para a condição física e saúde, visando o estudo de determinantes biomecânicas e fisiológicas bem como de variáveis de treino que permitam a optimização dos métodos de exercício. Estas linhas espelham uma visão atenta aos novos desafios que se colocam às Ciências do Desporto. Tal como tem sido reconhecido internacionalmente, para enfrentar os desafios emergentes da sociedade, tornam-se necessários novos olhares mais abrangentes sobre o desporto. Deste modo, o CIDESD, incluindo a comunidade Strong, tem estado atento aos desafios societais do presente e do futuro.

Em termos de investigação, quais serão as suas prioridades para o próximo triénio?

Para o próximo triénio, pretendo continuar a apostar em duas grandes áreas: uma mais centrada nos projectos de intervenção comunitária e outra direccionada para a investigação sobre a função neuromuscular com recurso a diferentes modelos de aplicação. No âmbito dos projetos de intervenção comunitária, tenho vindo a desenvolver, integrada em equipas multidisciplinares, projectos com uma vertente muito forte de translação do conhecimento científico para comunidade. Pretende-se, com estes projectos, o desenvolvimento e implementação de medidas centradas na promoção da saúde e qualidade de vida das pessoas e nas quais se inclui a prática regular de actividade física. Tenho especial interesse pela população mais idosa, dado que, dentro de poucas décadas, a Beira Interior será uma das regiões mais envelhecidas da Europa. Aliás, na região já existem concelhos com um índice de envelhecimento idêntico ao que será esperado para a globalidade da Europa em 2050. Urge, portanto, o desenvolvimento de iniciativas inovadoras, num enquadramento multidisciplinar, que possam contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas mais velhas, permitindo-lhes prolongar por mais anos os níveis de funcionalidade, autonomia e integração social. Verificando-se a adequação destas práticas, as mesmas poderão ser replicadas noutros locais do País e da Europa. Por outro lado, a função neuromuscular continua a ser o foco da minha investigação, acreditando que será de crescimento durante este triénio. Para além das parcerias nacionais, foram recentemente restabelecidas vias de cooperação internacional. Procura-se, assim, desenvolver investigação centrada nas adaptações neuromusculares ao exercício físico, ao desuso e ao processo de envelhecimento.