À conversa com os investigadores Pedro Forte e Ana Sousa

À conversa com os investigadores Pedro Forte e Ana Sousa

No arranque de um novo projecto estratégico (2020-23), o CIDESD dá voz aos seus jovens investigadores: Pedro Forte, do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) e do Instituto Superior de Ciências Educativas do Douro (ISCE Douro), e  Ana Sousa, bolseira de pós-doutoramento da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) a desenvolver as suas recolhas no Instituto Universitário da Maia (ISMAI). 

Qual o trabalho de investigação que tem estado a desenvolver?

Pedro Forte (P.F.): No último ano, temos vindo a desenvolver avaliações dos diferentes tipos de arrasto aerodinâmico e hidrodinâmico (pressão, viscosidade e arrasto total) em diferentes modalidades e com recurso a diferentes técnicas, nomeadamente com recurso à Dinâmica dos Fluidos Computacional (CFD). A CFD tem sido utilizada para testar diferentes materiais e posições dos atletas e permite-nos obter valores de arrasto e coeficiente de arrasto, o que poderá contribuir para dar algumas indicações para a melhoria do rendimento destes atletas. No ciclismo, fizemos análises em diferentes posições e velocidades e com diferentes capacetes. Temos dado continuidade aos trabalhos da avaliação hidrodinâmica com alguns nadadores, na qual a utilização da CFD já não é novidade no CIDESD. No entanto, para mim, passou a ser uma nova experiência e uma evolução no domínio da metodologia. Temos vindo a trabalhar também nas modalidades do desporto adaptado, nomeadamente nas provas de velocidade em cadeiras de rodas e, brevemente, aplicar-se-á a sujeitos amputados.

Ana Sousa (A.S.): Em Setembro de 2017 e com o apoio financeiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), dei início ao meu Pós-Doutoramento, onde tenho vindo a testar a hipótese de que o treino simulado em altitude, combinado com suplementação com nitrato, poderá induzir um benefício acrescido na performance de atletas bem treinados ao nível do mar. A ideia deste projecto surgiu com as recentes evidências científicas no âmbito dos meios ergogénicos (que potenciam a performance desportiva) mais utilizados no treino desportivo. Por um lado, o treino em altitude tem sido uma das estratégias mais utilizadas pelos atletas (sobretudo de endurance) na preparação e na potenciação dos períodos mais importantes da sua preparação desportiva. Por outro lado, a suplementação com nitrato tem recebido especial atenção na última década, uma vez que uma via paralela de produção de óxido nítrico (via suplementação exógena de nitrato) foi descoberta. Já que os mecanismos fisiológicos de ambas as estratégias se complementam, este projecto visa estudar se as duas intervenções combinadas trarão um benefício adicional na performance de atletas bem treinados.

De que forma é que esse trabalho se revelará útil para o público-alvo que tem estudado?

P.F.: Em primeiro lugar, porque se os ciclistas, atletas, nadadores e treinadores estiverem conscientes de quanto poderá variar o arrasto de acordo com as diferentes posições, poderão tentar manter-se, tanto quanto possível, naquela que irá impor menor arrasto. Assim, poderá contribuir para melhorar o tempo da prova e, consequentemente, diminuir o custo energético. Segundo, porque com o teste aos diferentes e novos capacetes e equipamentos podemos aconselhar a utilização do material mais adequado a cada um. Mais ainda, a CFD é vista como uma técnica que nos fornece resultados válidos e precisos. Assim, temos utilizado esta técnica com o objectivo de criar ou sustentar alternativas de avaliação mais simples e acessíveis, mas, ao mesmo tempo, “robustas” do ponto de vista científico.

A.S.: Temos vindo a testar atletas com diferentes passados desportivos, mas a maioria deles provém de modalidades de endurance: corrida de estrada, corrida de montanha e ciclismo. Os mesmos são sujeitos a um período de intervenção de quatro semanas de treino (em hipóxia ou normoxia) combinado com suplementação (com nitrato ou placebo). Imediatamente antes e após este período de intervenção, analisamos as respostas em diferentes biomarcadores através da recolha de amostras sanguíneas, musculares e salivares. A partir dos resultados obtidos, poderemos, de uma forma clara e evidente, atestar se o treino intermitente de quatro semanas em hipóxia, suplementado com nitrato (sob a forma de sumo de beterraba), trará vantagens adicionais na performance dos atletas, ou, se pelo contrário, não induzirá benefícios adicionais comparativamente a cada uma das estratégias utilizadas isoladamente. Na prática, os atletas que realizarem treino em altitude aquando da sua preparação desportiva saberão se a suplementação com nitrato deverá, ou não, ser utilizada de forma combinada para, por um lado, optimizarem o treino realizado e, consecutivamente, a sua adaptação e, por outro, maximizarem a sua performance desportiva subsequente ao nível do mar.

O facto de integrar o CIDESD tem sido uma mais-valia neste percurso de investigação? Porquê?

P.F.: O CIDESD permite a interacção com muitos colaboradores de referência na área da CFD. Graças aos investigadores Daniel Marinho, Jorge Morais e Tiago Barbosa temos vindo a acrescentar valor nas Ciências do Desporto através do domínio da CFD. O CIDESD tem vindo a crescer em membros e produção ao longo dos anos, o que nos permite sentir também esse crescimento no investimento que é canalizado para as nossas áreas enquanto investigadores. A CFD exige tecnologia de ponta e sem a aposta do CIDESD nos seus colaboradores não poderíamos, neste momento, produzir ciência nesta área. Os recursos materiais, como scanners de alta qualidade de captura de imagem e supercomputadores, são indispensáveis para evoluirmos no rigor, no detalhe e na inovação. O apoio do CIDESD traduz-se também numa motivação para corresponder às expectativas da comunidade. As novas metodologias são motivadoras para quem as testa e o CIDESD tem vindo ao longo do tempo a investir quer em materiais, quer em recursos.

A.S.: O CIDESD é um centro interinstitucional e multidisciplinar com uma grande rede nacional e internacional, composta por três grandes comunidades de investigação. Tal permite que a investigação a desenvolver se revista de um cariz altamente especializado, mas, ao mesmo tempo, extremamente colaborativo. Neste percurso, a rede CIDESD tem-me proporcionado o contacto, não só com instrumentos state-of-the-art, mas também com uma rede de investigadores especializados. Não obstante, o apoio financeiro para a realização de todas as tarefas científicas é uma constante. Tais têm permitido elevar, significativamente, a qualidade na investigação conduzida e a disseminação do produto científico.

Quais são as maiores dificuldades de um cientista jovem em Portugal?

P.F.: Alunos e docentes têm feito maioritariamente as suas investigações pro bono. A autonomia de investigação é, por norma, adquirida durante o doutoramento. No entanto, o custo financeiro associado à obtenção do grau pode ser elevado tendo em conta o salário mínimo nacional. Abordando os financiamentos, aquando das candidaturas a bolsas de doutoramento, já lá vai o tempo em que um ou dois artigos publicados eram diferenciadores num concurso e aquando do final dos estudos (doutoramento), as instituições de ensino superior e de investigação e desenvolvimento não mostram capacidade de reter investigadores ao ritmo que se vão formando. No final das bolsas de doutoramento e/ou pós-doutoramento, poderemos ser dispensáveis, o que é preocupante. Um investigador tende a avaliar o seu sucesso pelas publicações que faz ao longo do tempo. Já sabemos que os jornais de primeiro quartil só aceitam cerca de 10% dos artigos submetidos e que os nossos poderão estar nos 90% rejeitados. No entanto, a mesma editora convida-nos a transferir o nosso mesmo artigo previamente rejeitado para a versão “open” da revista, sendo necessário pagar um fee. Poderíamos questionar se ao pagamos para publicar, estaremos sempre nos 10% de todas as revistas. Acredito que nos próximos anos teremos cada vez mais revistas no “open acess”, sendo requisito o pagar para publicar. O capitalismo poder-se-á sobrepor à meritocracia. A ciência poderá ser, assim, convertida em capital e teremos mais sucesso (isto é, publicações) quanto mais dinheiro tivermos.

A.S.: A grande dificuldade de um cientista em Portugal, jovem ou não, prende-se com a disponibilidade de financiamento existente. Tradicionalmente, os cientistas portugueses dependem do financiamento quase exclusivo de uma única entidade (Fundação para a Ciência e Tecnologia), o que dificulta, obviamente, as probabilidades de sucesso na obtenção do apoio tão necessário. Assim, a diversidade dos apoios é escassa e, muitas das vezes, ainda dificultada pela imposição de critérios extremamente exigentes em alguns dos concursos existentes. Este paradigma, transversal a todos os investigadores, faz com que o panorama para os cientistas mais jovens seja ainda mais complexo, dado o número elevado de concorrentes experientes para as poucas vagas existentes. Desta forma, e com financiamento dificultado, muitas das investigações, particularmente de jovens cientistas, estagnam.