À conversa com os investigadores Diogo Monteiro e Nuno Mateus

À conversa com os investigadores Diogo Monteiro e Nuno Mateus

O trabalho científico é um desafio de exigências diárias para os investigadores Diogo Monteiro, docente na Escola Superior de Desporto de Rio Maior (ESDRMIP Santarém), e Nuno Mateus, bolseiro de doutoramento na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

Como é que vê a área das Ciências do Desporto no panorama actual da investigação?​

Diogo Monteiro (D.M.): Hoje em dia é inquestionável a importância da investigação em qualquer área do conhecimento e, obviamente, as Ciências do Desporto não são excepção à regra. Tal facto é notório pela proliferação de projectos financiados quer a nível nacional quer a nível internacional, bem como pelo volume de publicações existentes neste ramo do conhecimento. Basta uma simples pesquisa com o termo “sport” na Web of Science para verificar que desde 1900 até ao início do novo milénio, existiam 19 756 artigos. Contudo, se considerarmos o mesmo termo, mas entre 2000 e 2020, o número de publicações sobe para 131 486, o que demonstra de forma muito clara o quão este ramo do conhecimento evoluiu, principalmente nas últimas duas décadas. Neste sentido, as Ciências do Desporto é uma área bastante abrangente e nevrálgica do conhecimento e que se coaduna com outros ramos do conhecimento (por exemplo, saúde e tecnologia). O número de programas/projectos de actividade física em diversos pontos do País, cujo objectivo nuclear é promover a saúde através da prática de actividade física, evidencia claramente esta relação de simbiose entre o desporto e a saúde. Por outro lado, verificam-se também um conjunto de projectos que associam a vertente tecnológica com a prestação desportiva, por forma a ser possível a obtenção de indicadores que ajudem na melhoria da performance desportiva num curto espaço de tempo, bem como os equipamentos desportivos que são, hoje em dia estudados com recurso a técnicas sofisticadas que combinam diferentes áreas (biomecânica, anatomia, bioquímica, comportamento humano, ergonomia, entre outras). Apesar da investigação na área das Ciências do Desporto ter evoluído favoravelmente, há que continuar a trabalhar neste sentido, melhorando todos os dias não só através de artigos científicos com alto impacto, mas também em projectos que produzam outcomes essenciais para o contínuo crescimento da nossa área de actuação.

Como viu o decorrer do último projecto estratégico do CIDESD (2013-19) na sua comunidade?

D.M.: A comunidade GERON tem vindo a desenvolver um trabalho de elevada qualidade em diversas linhas de investigação, sendo o mesmo reconhecido internacionalmente, o que se reflectiu sabidamente na última avaliação do CIDESD por parte da FCT. O Programa de Actividades Conjuntas (PAC), no qual desenvolvo a minha investigação, também apresentou crescimentos e evolução, sobretudo devido à qualidade das publicações que nos permitiram e permitirão abrir novos horizontes, alargar a nossa network e desenvolver novos trabalhos para dar resposta aos novos desafios societais que se colocam às Ciências do Desporto. Assim, de forma holística, considero que o projecto estratégico 2013-2019 foi crucial não só para a captação financiamento, mas também para solidificar ainda mais o CIDESD no panorama nacional e internacional das Ciências do Desporto.

Em termos de investigação, quais serão as suas prioridades para o próximo triénio?

D.M.: A investigação que temos vindo a realizar procura compreender as determinantes comportamentais/motivacionais no desporto, exercício e estilos de vida activos e saudáveis, bem como o seu impacto em diferentes indicadores comportamentais, cognitivos e emocionais. Sobre este ponto de vista temos claramente duas linhas de investigação consolidadas: estudo das determinantes comportamentais/motivacionais nos comportamentos sedentários, actividade física e estilos de vida saudáveis, com o objectivo de encontrar soluções parcimoniosas para as pessoas evitarem comportamentos sedentários, aumentarem os níveis de actividade física e, consequentemente, adoptarem estilos de vida activos e saudáveis; por outro lado, a análise das determinantes comportamentais/motivacionais no desporto e o seu impacto no abandono, persistência e bem-estar, com o objectivo de traçar um perfil e/ou identificar características-chave dos atletas persistentes, de forma a evitar o abandono precoce e aumentar a longevidade na carreira desportiva, fomentando o bem-estar. Assim, o que temos estudado até agora permitiu-nos criar alguns instrumentos para a avaliação de diversos indicadores, bem como traçar algumas linhas orientadoras em função dos objectivos supramencionados. Com base nisto, perspectivamos o futuro através do desenvolvimento de programas de intervenção que enfatizem a utilização de métodos autodeterminados de regulação do envolvimento das pessoas na mudança do estilo de vida e no aumento comportamento de actividade física e bem-estar.

 

Qual o trabalho de investigação que tem estado a desenvolver?

Nuno Mateus (N.M.): Desde janeiro de 2019, quando iniciei a minha Bolsa de Doutoramento financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), tenho-me debruçado no estudo do comportamento sedentário (CS) e níveis de actividade física (AF) de jovens desportistas. É do conhecimento público que os adolescentes despendem cada vez mais tempo em CS e que a percentagem de jovens que não cumpre as recomendações diárias de AF tem aumentado exponencialmente. Contrariamente ao que se pensa, os jovens desportistas não estão imunes a este problema, pois vários estudos têm demonstrado níveis de CS similares entre desportistas e não desportistas. Porventura, os encarregados de educação não reconhecem estes elevados níveis de CS como uma ameaça, pois consideram que a elevada prática desportiva pode compensar ou mitigar os efeitos negativos deste tipo de comportamento. Por isso, o meu trabalho de investigação procura relacionar o contexto de treino com os comportamentos fora-do-treino (nomeadamente CS e AF), de forma a identificar a influência do estilo de vida em parâmetros de treino e competição.

De que forma é que esse trabalho se revelará útil (ou poderá ser aplicado) para o público-alvo que tem estudado?

N.M.: Julgo que o meu tópico de investigação é actual e pode ter importantes implicações para o futuro, não só para a faixa etária que temos estudado, mas também para o desporto sénior de alto rendimento. Identificar de que forma as variáveis relacionadas com AF e CS influenciam o rendimento de treino de jovens desportistas vai promover uma maior preocupação de treinadores e encarregados de educação relativamente aos hábitos fora-do-treino dos jovens desportistas, nomeadamente se os hábitos de sono (HS) forem adicionados a esta equação. Neste sentido, as entidades e as organizações que se incubem do desporto juvenil podem desempenhar um papel-chave no desenvolvimento de estratégias que minimizem CS, maximizem os níveis de AF e corrijam HS (quiçá, reformular horários de treino e competição), bem como na divulgação de acções que informem encarregados de educação acerca dos efeitos prejudiciais do CS identificados durante os períodos fora-do-treino. Relativamente ao desporto sénior de alto rendimento, está já provado que um excessivo CS e is HS pouco eficientes prejudicam o rendimento desportivo. Se os departamentos técnicos e médicos estiverem cientes dos hábitos fora-do-treino dos jogadores, poderão melhor o seu rendimento desportivo e os seus níveis de saúde.

O facto de integrar o CIDESD tem sido uma mais-valia neste percurso de investigação? 

N.M.: Sem dúvida, que sim, nomeadamente do ponto de vista do aumento de conhecimento científico e acesso a tecnologia que implicaria um investimento económico bastante considerável. Integrar o CIDESD permite-me interagir com investigadores com um vasto currículo académico e profissional, com um conhecimento ímpar e diferenciado na área das Ciências do Desporto, contribuindo para a minha formação académica e desenvolvimento profissional. Do ponto de vista tecnológico, o CIDESD possui instrumentos de treino e de avaliação que poucos centros de investigação e clubes nacionais detêm, permitindo-me aumentar a variedade, a fiabilidade e a precisão dos diferentes estudos que tenho realizado.

Quais são as maiores dificuldades de um cientista jovem em Portugal? ​​

N.M.: Penso que posso enumerar três problemas. O primeiro prende-se com a dificuldade em encontrarmos amostras que preencham os requisitos dos trabalhos que nos propomos desenvolver, nomeadamente a nível de quantidade (número de indivíduos) e de qualidade (nível competitivo relevante). O facto de não sermos remunerados ou usufruirmos de benefícios associados a trabalhos desenvolvidos a par do nosso projecto de investigação é outro ponto a destacar. Por fim, destaco o vínculo extremamente débil que caracteriza as bolsas de investigação, visto que após a sua conclusão, estamos perante uma situação de desemprego iminente, o que não favorece o desenvolvimento das carreiras profissionais e o nosso próprio bem-estar.